> Alca ou UE?
ALCA ou UE?
Outro tema que implicará em escolha difícil para o país; O Brasil
deverá entrar na Alca, assinar acordos bilaterias ou fazer um acordo com a UE?
O artigo do Ministro Paulo Roberto de Almeida, da Embaixada do Brasil
em Washington aborda esta delicada questão.
Autor de vários livros
sobre a economia, a história, a política e sociedade brasileira, o Ministro
Paulo Roberto de Almeida resume esta questão que, aliás, é tema de novo livro
(junto com Kátia Mattoso) sobre o assunto.
O Mercosul e desafio da Alca: a UE é alternativa?
Paulo
Roberto de Almeida (www.pralmeida.org)
O Mercosul, com todos os seus problemas
de união aduaneira imperfeita e de zona de livre comércio inacabada, apresenta-se
como um dado da realidade econômica e política da América do Sul, ao mesmo tempo
em que representa um processo real de aproximação de posições entre países que
já partilham de uma história comum. A Alca, por sua vez, é uma hipótese de trabalho,
ao mesmo tempo em que a expressão de um processo negociador que se apresenta como
de difícil realização, por envolver nações de tradições diversas e que seguiram
itinerários contrastantes ao longo do tempo.
O Mercosul é uma decisão
fundamentalmente política que se realiza apoiado em decisões de caráter econômico.
A Alca é uma proposta essencialmente econômica que seus proponentes originais
tentam implementar de forma política. O Mercosul emerge como um exercício de convergência
de interesses entre países situados, grosso modo, num mesmo patamar de desenvolvimento
econômico e social, a despeito de diferenças de tamanho entre eles. A Alca tenciona
nivelar o terreno de jogo - level the playing field - entre economias e sociedades
ostentando enormes diferenças estruturais entre si, uma vez que confronta a principal
potência planetária, de fato a única superpotência existente, a três dezenas de
outros países que não chegam a perfazer um quinto de sua própria "massa atômica".
O Mercosul vem praticando um esforço de auto-contenção nos litígios internos,
utilizando-se basicamente de um mecanismo de administração política das controvérsias
ligadas ao comércio recíproco e só então recorrendo a um tipo de solução arbitral
ad hoc. A Alca deveria normalmente ostentar instâncias resolutivas dos conflitos
comerciais marcadas pela sua relativa automaticidade e independência dos governos,
com efeitos econômicos mais ou menos imediatos.
Em suma, o Mercosul é
uma modesta construção integracionista que funciona em regime de condomínio, com
relativa permeabilidade e associativismo entre os seus, até agora, poucos membros.
A Alca apresenta-se como um imenso edifício de escritórios, onde a impessoalidade
de trato e a frieza das regras padronizadas prometem poucos momentos de excitação
e muitos anos de aborrecimento.
Os mais otimistas acreditam que quaisquer
que sejam os resultados do processo negociador da Alca, o Mercosul irá necessariamente
sobreviver, ainda que não se saiba exatamente como e em que condições. Seu desempenho
comercial pode tornar-se francamente medíocre, a depender da profundidade e extensão
da Alca, assim como sua saúde econômica pode retroceder significativamente em
relação aos prognósticos realizados no início dos anos 1990. Ele poderá, obviamente,
sair fortalecido e confirmar o acertado da decisão original de se construir progressivamente
um mercado comum com base numa metodologia inovadora em relação às experiências
existentes no gênero, na verdade restritas ao precedente da União Européia. Mas,
ele poderia também caminhar para a erosão e ser reduzido a um mero arranjo para
consultas políticas de fachada, sem maiores efeitos comerciais efetivos, já que
hipoteticamente absorvido ou diluído numa Alca bem mais ambiciosa do que os exemplos
tradicionais de zonas de livre comércio.
No caso da Alca, subsistem incertezas
quanto ao desenvolvimento do próprio processo negociador, como a ausência e a
indefinição de conteúdo em relação ao necessário mandato a ser atribuído pelo
Congresso ao Executivo dos EUA. Outras limitações de natureza política - como
a ausência de consultas regulares entre os líderes dos países membros, como ocorre
hoje a cada semestre no Mercosul - e alguns fatores condicionantes - como a desproporção
de peso comercial entre os países participantes - atuavam para converter a implementação
efetiva da Alca em um cenário de incertezas. Se o processo negociador não resultar
em acordo até o final de 2004 ou o início de 2005, o cenário hemisférico não será
muito diferente do atual, com a proliferação quase anárquica de esquemas subregionais,
convivendo com as tentativas multilateralistas de "convivência pacífica" ao abrigo
da ALADI ou da OMC. Se por acaso as negociações se revelarem exitosas, o Mercosul
terá de adaptar sua arquitetura institucional e sua agenda interna à nova realidade
da Alca.
A Alca pode ser complementar aos arranjos subregionais já existentes
no Cone Sul, ou a outros que venham a ser negociados fora da própria região, dependendo
de seu grau de aprofundamento e dos compromissos específicos contraídos pelos
países participantes. Ela não é, portanto, necessariamente excludente em relação
ao Mercosul, mas a substância deste último conhecerá, é óbvio, inflexões econômicas
importantes em função da disposição dos países membros em preservar essa construção
política em face de um poderoso concorrente comercial. Em outros termos, a Alca
não impede um acordo entre o Mercosul e a UE, bloco com o qual existe um grau
razoável de diálogo no plano político e certas afinidades institucionais, mas
não se deve fazer desse acordo interregional uma solução "ótima" comparada com
a Alca, uma vez que, conceitualmente, ao tratar-se de acordos de liberalização
comercial, eles não diferem substantivamente.
Num certo sentido, um acordo
entre Mercosul e a UE se afigura ainda mais difícil do que no âmbito da Alca,
pois são notórias as resistências européias em termos de liberalização agrícola
e o imenso potencial protecionista de seus "agricultores", que são em grande medida
"assalariados" do Estado, ou melhor, da Comissão Européia. A composição dos fluxos
de comércio aponta, por outro lado, para uma melhor "relação de trocas" no âmbito
da Alca, onde a composição das exportações brasileiras apresenta, por exemplo,
um maior valor agregado (maior proporção de manufaturas), ao passo que no comércio
interregional predomina o padrão típico das trocas Norte-Sul (commodities contra
bens mais sofisticados).
O ideal mesmo, para países como o Brasil e os
demais parceiros do Mercosul, seria um amplo acordo multilateral de abertura irrestrita
dos mercados avançados aos produtos dos países menos desenvolvidos. O mundo em
desenvolvimento não sofre tanto com a falta (ou insuficiência) de ajuda oficial
e de cooperação ao desenvolvimento quanto com as barreiras ilegais, abusivas e
inaceitáveis que existem no comércio internacional, a começar pelo protecionismo
absurdo e pelo subvencionismo imoral que predominam em vários setores da economia
dos países mais avançados.
Paulo Roberto de Almeida Washington: 18.07.02